Enfermagem

IA no hospital: estudo com 165 profissionais aponta como suporte e TI impulsionam produtividade

Úrsula Teles 10 de abril de 2026 7 min de leitura

Neste artigo

Inteligência Artificial já não é “futuro” dentro do hospital. Ela está no prontuário, nos dashboards, nos sistemas de apoio à decisão e até nas rotinas administrativas que influenciam diretamente a assistência.

O desafio, porém, é prático: como transformar ferramentas de IA em produtividade real sem aumentar ruído, retrabalho ou frustração?

Um estudo publicado na revista Al-Nasr (2024) investigou essa pergunta em dois hospitais terciários de Gujranwala (Paquistão), analisando como ferramentas de IA se relacionam com produtividade e com fatores organizacionais que costumam decidir se a tecnologia “pega” ou “morre” na implantação.

Tecnologia sozinha não entrega produtividade. O estudo aponta que o ganho acontece quando IA vem acompanhada de suporte organizacional, infraestrutura de TI e um ambiente que favorece inovação.

O que o estudo analisou (e por que isso importa para a Enfermagem)

Embora o artigo não seja exclusivo de Enfermagem, ele trata de um tema que afeta diretamente a rotina do time de enfermagem: produtividade em um contexto de alta demanda, múltiplas prioridades e pressão por qualidade.

Na prática, “produtividade” na Enfermagem não deveria significar correr mais. Ela significa:

  • Mais tempo para cuidado direto — menos tempo perdido com tarefas repetitivas e burocráticas
  • Menos interrupções desnecessárias — menos retrabalho, menos idas e vindas por informação
  • Melhor coordenação — comunicação e passagem de plantão com menos ruído

Esse tipo de produtividade é onde a IA pode ajudar, mas o “como” depende muito de contexto institucional.

Contexto e amostra, em linguagem simples

Segundo o artigo, a pesquisa ocorreu em dois hospitais terciários da cidade de Gujranwala: o Gujranwala Teaching Hospital (GTH) (775 leitos) e o GMC Teaching Hospital (GMCTH) (502 leitos).

Os autores relatam que coletaram 165 respostas de um total de 197 funcionários, o que equivale a uma taxa de resposta de 83,84%. A coleta foi feita por questionário (escala Likert de 5 pontos), distribuído por e-mail e grupos oficiais.

O grupo incluiu profissionais como médicos, equipe administrativa/gestão e staff de apoio. O artigo menciona que os respondentes utilizavam ferramentas de IA em suas rotinas.

  • Por que isso interessa para a Enfermagem? Porque decisões de tecnologia raramente ficam “dentro” de um único setor. Quando gestão, TI e áreas clínicas caminham juntas (ou não), a Enfermagem sente imediatamente o efeito.

Quais variáveis foram medidas

O modelo do estudo avaliou cinco construtos principais:

  • AI Tools (Ferramentas de IA) — percepção/uso de ferramentas com algum grau de automação inteligente
  • Organizational Support (Suporte Organizacional) — apoio institucional para adoção e uso
  • Information Technology (Uso/infraestrutura de TI) — base tecnológica para sustentar as ferramentas
  • Employee Innovation (Inovação do colaborador) — disposição para experimentar, adaptar e melhorar processos
  • Employee Productivity (Produtividade) — percepção de desempenho/eficiência no trabalho

Em hospitais, esses cinco elementos costumam se comportar como um sistema: se um deles falha, os demais sofrem.

O método (sem jargão desnecessário)

O artigo descreve o uso de Partial Least Squares (PLS) para analisar relações entre as variáveis do modelo. Também apresenta checagens de qualidade do instrumento (confiabilidade e validade), como:

  • VIF (para multicolinearidade) com valores reportados abaixo de 5 nos indicadores
  • Cronbach’s Alpha (consistência interna), com valores variando aproximadamente de 0,510 a 0,706 nos construtos
  • AVE (validade convergente), com valores reportados na faixa de 0,549 a 0,667

O estudo também apresenta uma análise de discriminância entre construtos por HTMT, com valores reportados abaixo do limiar citado (no texto, os autores discutem valores abaixo de 0,85 e também mencionam 0,90).

Ou seja, antes de interpretar relações do modelo, os autores tentam demonstrar que estão medindo “coisas diferentes” (por exemplo, suporte organizacional não é a mesma coisa que TI, que não é a mesma coisa que inovação).

O que dá para levar para a prática de Enfermagem, com segurança

O texto do artigo enfatiza que ferramentas de IA se conectam a produtividade, mas reforça que o caminho passa por condições organizacionais.

Traduzindo para o cotidiano da Enfermagem, três perguntas ficam inevitáveis antes de qualquer “implantação de IA”:

  • O hospital está apoiando de verdade? (treinamento, tempo protegido, suporte no plantão, governança)
  • A TI está pronta? (integração, acesso estável, dispositivos, rede, permissões e suporte)
  • Existe espaço para inovação local? (ou tudo vira burocracia e o time aprende a “driblar o sistema”)

Quando essas condições não existem, a tendência é a ferramenta virar mais uma tarefa. Quando existem, a IA tem mais chance de virar alívio de carga e padronização útil, em vez de fricção.

Na Enfermagem, a pergunta não é “tem IA?”. É: ela devolve tempo para o cuidado, ou apenas muda o lugar do retrabalho?

Como aplicar isso em um projeto de IA no hospital (passo a passo)

Se você é enfermeiro(a) líder, preceptor(a) ou gestor(a) e está participando de um projeto com IA, aqui vai um roteiro prático inspirado nos pontos que o estudo coloca em evidência.

1) Comece pelo problema certo

  • Escolha um gargalo mensurável — por exemplo, tempo de documentação, atrasos em checagens, ruído na passagem de plantão
  • Defina o que é “ganho” — tempo, segurança, continuidade, satisfação do time, redução de retrabalho
  • Evite promessas genéricas — “IA vai melhorar tudo” costuma virar decepção

2) Exija suporte organizacional visível

  • Treinamento por cenário — não só tutorial, mas treino com casos reais do plantão
  • Canal de suporte rápido — quem responde quando dá erro às 03:00?
  • Governança clara — quem decide mudanças, revisões, e quando pausar algo inseguro

3) Garanta o “mínimo de TI” para não culpar o usuário

  • Acesso e performance — login, permissões, rede e dispositivos funcionam sempre?
  • Integração — a ferramenta conversa com o prontuário ou cria dupla digitação?
  • Monitoramento — existe telemetria básica para ver falhas e gargalos?

Esse cuidado evita o erro clássico: dizer que o time “resistiu”, quando na verdade o sistema é que não sustentou o trabalho real.

Limitações que o próprio artigo reconhece

Os autores apontam limitações importantes. Entre elas:

  • Contexto único — o estudo foi conduzido em um cenário específico, o que limita generalização
  • Dados autorrelatados — questionários podem sofrer viés de desejabilidade social e de método comum
  • Número limitado de variáveis — outros fatores (cultura, liderança, prontidão digital) podem mudar os resultados

Na Enfermagem, isso reforça uma postura madura: usar a evidência como direção, mas validar com indicadores locais e ajustes por unidade, turno e perfil de paciente.

Conclusão

O principal recado para o hospital e, especialmente, para a Enfermagem, é simples e poderoso: produtividade com IA não é “instalar uma ferramenta”. É alinhar suporte organizacional, infraestrutura de TI e espaço para inovação do time.

Quando esse alinhamento acontece, a tecnologia tem chance de fazer aquilo que mais importa na Enfermagem: devolver tempo, clareza e continuidade para o cuidado.

Referência

Ahmed R, Naz M, Iqbal Q, Cheema AM. Impact of Artificial Intelligence Tools on Employee Productivity: A Quantitative Analysis in Tertiary Care Hospitals of Gujranwala. Al-Nasr. 2024;3(2). DOI: 10.53762/alnasr.03.02.e01.

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Escrito por

Úrsula Teles

Acadêmica de Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de ensino, pesquisa e extensão relacionados à inovação em saúde e tecnologias digitais aplicadas à enfermagem. Possui interesse em saúde digital e inteligência artificial, com foco na aplicação dessas tecnologias no cuidado em enfermagem na área de urgência e emergência.

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