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Relatório alerta para “Uber da enfermagem”: apps usam IA para definir pagamento e pressionam por desregulamentação

Júlio Sousa 22 de abril de 2026 5 min de leitura

Neste artigo

Estados Unidos — Um novo relatório do AI Now Institute acendeu o alerta sobre a “gigificação” do trabalho na saúde: plataformas conhecidas como “Uber da enfermagem” estariam usando inteligência artificial para intermediar plantões, definir remuneração e monitorar desempenho, ao mesmo tempo em que fazem lobby para serem tratadas como empresas de tecnologia, e não como agências de staffing sujeitas às mesmas regras do setor.

A publicação, intitulada Uber for Nursing Part II: How Gig Nursing Companies Are Lobbying States to Dereulate Healthcare, descreve a expansão de aplicativos que conectam enfermeiros a turnos em hospitais e outras unidades, muitas vezes com pouca transparência sobre critérios de alocação, penalidades por cancelamento e formação de preços. O documento também mapeia projetos de lei, desde 2022, em ao menos 17 estados, que buscam criar exceções regulatórias para esse modelo.

O que está em jogo para a enfermagem

Na prática, a promessa de “flexibilidade” pode vir acompanhada de perda de proteções trabalhistas, fragmentação da continuidade do cuidado e pressão por aceitar plantões com menor remuneração. Segundo o relatório, algumas plataformas operam com mecanismos que lembram leilões de plantões, nos quais profissionais “competem” entre si por valores mais baixos, enquanto algoritmos definem prioridade de ofertas e acesso a futuros turnos.

“A IA é incorporada nesses sistemas de gestão humana e, para enfermeiros, isso pode significar ser jogado em todo tipo de lugar, sem orientação, sem suporte adequado e sem uma forma clara de se proteger”, disse a pesquisadora Katie J. Wells, coautora do relatório, em entrevista ao The Guardian.

O texto chama atenção para um ponto muitas vezes ignorado no debate público: antes de “substituir” profissionais, a IA pode reconfigurar o trabalho, degradando condições e ampliando assimetrias de poder por meio de métricas opacas, vigilância e incentivos mal desenhados.

Como a IA entra na gestão de plantões

De acordo com o relatório, plataformas do setor usam automação para etapas como:

  • Precificação de turnos com base em “demanda do mercado” e histórico, sem negociação individual transparente.
  • Correspondência (matching) entre profissional e unidade, com critérios que nem sempre são claros para quem aceita o plantão.
  • Métricas de performance que podem influenciar a visibilidade do profissional no aplicativo, frequência de ofertas e até “desativação”.

O relatório menciona ainda sistemas de pontuação e penalidades por cancelamento, que podem reduzir acesso a oportunidades futuras. O risco, apontam as autoras, é que esses mecanismos incentivem a aceitação de plantões em condições inadequadas, inclusive em locais desconhecidos, com pouco tempo de integração, impactando segurança do paciente e do próprio trabalhador.

Regulação: “empresa de tecnologia” ou agência de staffing?

Um dos eixos centrais do documento é a estratégia regulatória: ao buscar uma nova categoria, como “plataforma de profissionais de saúde”, as empresas tentariam fugir de obrigações aplicadas a agências de recrutamento e alocação. O relatório cita propostas que avançaram em diversos estados e aponta que algumas jurisdições já adotaram exceções específicas. Em contraste, Nova York aprovou em 2025 uma lei determinando que essas plataformas cumpram regras estaduais equivalentes às de agências de staffing em saúde.

Para a enfermagem, a discussão tem implicações diretas: quem responde por treinamento mínimo e orientação? Quem assume responsabilidade em caso de falhas? Como garantir padrões de qualidade e segurança quando o vínculo é mediado por aplicativos e contratos de curta duração?

O que isso sinaliza para o Brasil

Embora o debate do relatório seja centrado nos EUA, ele conversa com tendências globais: plataformização de serviços, uso de IA para gestão de força de trabalho e pressão por flexibilização. No contexto brasileiro, a adoção de soluções digitais para escalas e recrutamento já existe, e pode crescer em um cenário de escassez de profissionais, sobrecarga e busca por redução de custos.

Vale observar que, em paralelo, a literatura científica recente vem discutindo como a IA (inclusive a generativa) está entrando na formação e na prática da enfermagem. Um exemplo é uma meta-síntese qualitativa publicada em 20 de abril de 2026 na BMC Nursing sobre a experiência de estudantes de enfermagem com IA generativa (PubMed: 42010429). Esse tipo de evidência reforça que a tecnologia já está impactando o cotidiano profissional, e que a discussão precisa incluir tanto aprendizagem quanto trabalho e direitos.

Em resumo

  • O relatório aponta que plataformas de “plantão sob demanda” usam IA para precificar, monitorar e gerir acesso a oportunidades.
  • Há um movimento coordenado para criar exceções regulatórias em diversos estados americanos desde 2022.
  • O debate envolve segurança do paciente, qualidade do cuidado e proteções trabalhistas.

Fonte

Relatório (AI Now Institute): Uber For Nursing Part II (publicado em 21 de abril de 2026).
Matéria: The Guardian, “Uber for nurses: gig-work apps lobby to deregulate healthcare” (21 de abril de 2026).

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Escrito por

Júlio Sousa

Diretor de tecnologia e especialista em inovação educacional, com atuação em inteligência artificial aplicada à educação e desenvolvimento de plataformas digitais de aprendizagem. Graduado em Sistemas de Informação e especialista em Gestão e Governança em TI pela UFG.

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