Neste artigo
A discussão sobre inteligência artificial (IA) e robótica costuma ficar no campo do “futuro”.
Mas, quando olhamos para a força de trabalho da saúde, especialmente a enfermagem, o tema já é bem mais concreto.
Um relatório publicado nos anais da EPSTEM (Volume 33, 2025) analisa como essas tecnologias podem transformar funções, competências e rotinas, e alerta para riscos que precisam ser geridos desde já.
Mais do que “substituir” profissionais, a IA tende a redistribuir tarefas, automatizar rotinas e exigir novas competências, especialmente digitais.
O que o estudo analisou (e por que isso importa para a enfermagem)
O trabalho, assinado por Rumyana Stoyanova (Medical University of Plovdiv), discute o impacto de IA e robótica no mercado de trabalho da enfermagem, com foco em mudanças de papéis, habilidades e dinâmica da força de trabalho.
Segundo o próprio artigo, trata-se de uma revisão sistemática (o texto não detalha, no PDF, bases de dados, critérios de inclusão ou número de estudos).
Mesmo com esse nível de detalhamento limitado, o material é útil para orientar decisões de gestão e desenvolvimento profissional, porque sintetiza onde a tecnologia costuma “pegar” primeiro no cotidiano.
O pano de fundo: escassez de profissionais e pressão assistencial
O artigo parte de um contexto de escassez de enfermeiros e pressão crescente sobre os sistemas de saúde.
O texto cita o caso da Bulgária, com um problema persistente de falta de enfermeiros ao longo de décadas, somado a fatores que também aparecem no Brasil: envelhecimento populacional, aumento de doenças crônicas e maior demanda por cuidado.
Nesse cenário, a promessa da tecnologia não é “mágica”.
Ela é operacional: reduzir retrabalho, automatizar tarefas repetitivas, melhorar priorização e apoiar decisões, para que o tempo de enfermagem seja usado onde faz mais diferença.
Onde a IA costuma entrar primeiro na rotina de enfermagem
Quando falamos em IA, é comum imaginar apenas chatbots.
Na prática, o impacto aparece em camadas, e muitas vezes de forma “invisível”, dentro de sistemas.
O artigo menciona áreas como automação de tarefas, apoio à decisão e ganhos de eficiência.
Na enfermagem, isso normalmente se traduz em frentes como:
- Priorização e triagem de informações clínicas, ajudando a reduzir ruído e apontar sinais de risco
- Documentação e registros, com suporte para organizar, resumir e padronizar informações
- Monitoramento e alertas, com modelos que tentam antecipar deterioração clínica
- Logística e fluxo, como alocação de recursos e apoio ao planejamento do cuidado
O ponto-chave é que a IA não “faz” enfermagem.
Ela mexe no trabalho da enfermagem ao modificar como dados chegam, como tarefas são distribuídas e como decisões são documentadas.
Robótica: o que é realista esperar no curto prazo
Quando se fala em robôs, muita gente pensa em um “humanoide” substituindo o profissional.
O caminho mais provável é diferente: robótica de apoio, voltada a tarefas específicas.
Em hospitais e instituições, exemplos comuns incluem automação de transporte interno, apoio em higienização e dispositivos que reduzem esforço físico.
Isso importa porque uma parte significativa do desgaste na enfermagem vem de:
- Esforço físico repetitivo e movimentação de pacientes e materiais
- Interrupções e tarefas fragmentadas que quebram o foco
- Acúmulo de microtarefas que parecem pequenas, mas somam horas
Robôs e automações podem aliviar parte desse peso.
Mas o efeito positivo só aparece quando existe desenho de processo e treinamento, e quando o time confia no sistema.
Competências que tendem a se valorizar com a IA
Um dos alertas mais importantes do artigo é sobre lacunas de habilidades e a necessidade de desenvolvimento profissional contínuo.
Na prática, a enfermagem tende a valorizar ainda mais competências como:
- Alfabetização digital (entender sistemas, limitações e onde erros podem surgir)
- Raciocínio clínico para validar saídas de sistemas e evitar “automação cega”
- Comunicação para explicar decisões mediadas por tecnologia e manter o cuidado centrado na pessoa
- Segurança do paciente aplicada a novos riscos (falhas de alerta, vieses, dependência de dados incompletos)
Isso não significa que todo enfermeiro precise virar “analista de dados”.
Significa que, em ambientes digitalizados, saber trabalhar com tecnologia vira parte do “mínimo profissional”.
Quanto mais a tecnologia entra no cuidado, mais a enfermagem precisa liderar a forma como ela é usada, para que eficiência não venha à custa de segurança, ética e humanidade.
Riscos que gestores e equipes não podem ignorar
O artigo destaca preocupações com deslocamento de postos, ampliação de desigualdades de competência e questões éticas, incluindo privacidade e segurança do paciente.
Mesmo sem números no texto, dá para transformar esses riscos em perguntas práticas para implantação:
- Governança: quem valida o sistema, revisa alertas e define limites de uso?
- Treinamento: existe plano contínuo, com atualização periódica e espaço para dúvidas?
- Segurança: há rotina de auditoria de erros, quase-erros e falsos alertas?
- Dados: a qualidade do dado de origem é suficiente para sustentar decisões?
- Equidade: o sistema pode amplificar vieses (por exemplo, em populações sub-representadas)?
Sem essas respostas, a IA pode virar mais uma fonte de ruído.
Com elas, pode aliviar carga, qualificar registros e dar suporte real ao cuidado.
O que dá para aplicar amanhã, sem “comprar um robô”
Nem toda transformação depende de grandes aquisições.
Algumas ações de curto prazo que costumam gerar valor, mesmo em contextos com recursos limitados:
- Mapear tarefas repetitivas (o que toma tempo e poderia ser automatizado ou padronizado)
- Padronizar documentação com templates e checklists (reduz variação e retrabalho)
- Rever alertas e fluxos de notificação (menos interrupção, mais prioridade clínica)
- Capacitar o time em letramento digital e segurança da informação
Quando a casa está organizada, fica muito mais fácil avaliar, comprar e implantar ferramentas mais avançadas.
Limitações do artigo (transparência é parte da ciência)
Um cuidado importante: o texto tem formato de relatório curto (6 páginas) e não traz, no PDF, detalhes metodológicos finos, como estratégia de busca, seleção de estudos e síntese quantitativa.
Também não apresenta métricas numéricas sobre redução de tempo, custos, desfechos clínicos ou tamanho de efeito.
Por isso, ele funciona melhor como um “mapa” de temas e riscos do que como evidência definitiva de impacto.
Conclusão
A mensagem central é clara: IA e robótica tendem a mudar o trabalho da enfermagem, principalmente por automação de rotinas e reorganização de tarefas.
O ganho pode ser grande, especialmente em cenários de escassez.
Mas ele não é automático.
Exige governança, educação permanente, segurança do paciente e participação ativa da enfermagem no desenho do uso da tecnologia.
Referência
Stoyanova, R. The Impact of Artificial Intelligence and Robotics on the Nursing Labor Market: Transformations, Opportunities, and Challenges. The Eurasia Proceedings of Science, Technology, Engineering and Mathematics (EPSTEM). 2025;33:114-119. DOI: 10.55549/epstem.1731166.