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Confiança do paciente em IA na saúde é condicional e varia por idade, aponta pesquisa

Úrsula Teles 17 de maio de 2026 5 min de leitura

Neste artigo

A aceitação de inteligência artificial (IA) em serviços de saúde depende menos da tecnologia em si e mais de um fator simples: a sensação de que ainda existe uma pessoa responsável do outro lado. Essa é a principal conclusão de um novo relatório de adoção e confiança em IA na saúde, baseado em uma pesquisa com 1.012 adultos nos Estados Unidos, divulgada em 14 de maio de 2026.

O levantamento, citado pelo Healthcare IT News, mostra que pacientes tendem a aceitar melhor IA em tarefas administrativas de baixo risco (como agendamento), mas recuam quando a tecnologia entra em áreas sensíveis, como diagnóstico e, principalmente, cobrança.

  • Agendamento: a pesquisa aponta uma taxa de conforto em torno de 52% quando a IA é usada para marcar consultas.
  • Diagnóstico: a aceitação cai para cerca de 37% quando a IA participa de decisões clínicas.
  • Cobrança: a resistência é maior, e 35% disseram que nenhuma economia de custo compensaria um suporte de faturamento totalmente automatizado.

Por que isso importa para a Enfermagem

Para a Enfermagem, o recado é direto: ferramentas de IA podem, sim, reduzir carga administrativa e liberar tempo para o cuidado, mas não devem substituir a relação humana, sobretudo em pontos de atrito onde o paciente já chega desconfiado (contas, autorizações, estimativas de custos, negativas de cobertura).

Em muitos serviços, profissionais de Enfermagem acabam sendo o elo que explica processos, orienta famílias e acalma o paciente diante de dúvidas e frustrações. Se a implantação de IA for percebida como uma barreira adicional (por exemplo, um “robô” que dificulta falar com alguém), o efeito pode ser o oposto do esperado: mais queixas, mais retrabalho e pior experiência do paciente.

“A diferença entre o cenário mais aceito e o menos aceito não é a tecnologia. É a presença de um humano.”

O que a pesquisa encontrou

O relatório foi elaborado pela Sogolytics, uma empresa de plataformas de experiência do cliente e gestão de feedback. O objetivo foi entender o que os pacientes toleram (ou rejeitam) quando a IA entra em etapas de atendimento e transações em saúde.

Um dos achados mais relevantes é que a confiança do paciente em setores administrativos já é limitada. Segundo a matéria, 52% disseram confiar menos em departamentos de cobrança de sistemas de saúde e 49% confiam menos em seguradoras. Nesse contexto, a adoção de IA “autônoma” (sem supervisão humana) tende a ampliar a desconfiança.

Outro ponto é a importância de human-in-the-loop, ou seja, arquiteturas em que humanos supervisionam e podem intervir. Para 47% dos participantes, a garantia de que haverá um representante humano disponível é o fator mais importante para aumentar conforto com IA em cobrança médica.

Uma diferença geracional chama atenção

A pesquisa também descreve uma divisão por idade. Adultos mais jovens (25 a 34 anos) relataram fricções com cobrança em uma frequência muito maior (63%) do que pacientes idosos (14%). A hipótese levantada é que pessoas mais jovens lidam com maior complexidade de planos e regras, e podem ter menos familiaridade com o “labirinto” do sistema, o que aumenta a frustração.

Na prática, isso significa que o mesmo desenho de IA pode funcionar bem para um grupo e fracassar para outro. Se o canal de suporte fica mais difícil de acessar, a aceitação despenca: apenas 16% aceitariam IA fornecendo estimativas de custo quando o suporte por telefone se torna mais difícil de encontrar, segundo o relatório.

O que muda (ou deveria mudar) na implantação de IA

Em vez de “automatizar tudo”, o relatório sugere priorizar IA onde já existe maior buy-in: tarefas repetitivas e administrativas que não exigem decisões clínicas e que, quando bem desenhadas, diminuem filas e reduzem burocracia. Já em áreas sensíveis, a recomendação é transparência e acesso fácil a um humano.

Para gestores de Enfermagem e times de qualidade, isso se traduz em três cuidados práticos:

  • Desenho de fluxo: IA como “primeira camada” é aceitável se o paciente conseguir escalar para um humano rapidamente.
  • Comunicação clara: explicar quando a IA está sendo usada, o que ela faz (e o que não faz), e quem é responsável.
  • Monitoramento de danos: acompanhar reclamações, tempo de resolução e sensação de abandono do paciente após a implantação.

O tema dialoga com uma tendência mais ampla: pacientes já usam IA generativa (como chatbots) para pesquisar serviços e profissionais, mas isso não significa que aceitem automação em qualquer etapa do cuidado. Em especial, quando o assunto é cobrança e diagnóstico, o paciente parece querer a mesma coisa: responsabilidade humana e possibilidade de conversa.

Fonte

Matéria: Andrea Fox. “Trust in healthcare AI is conditional and generational, survey shows”. Healthcare IT News, 14 maio 2026. Disponível em: https://www.healthcareitnews.com/news/trust-healthcare-ai-conditional-and-generational-survey-shows.

Relatório citado: Sogolytics, “Healthcare AI Adoption & Trust Report (2026)”. Link.

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Escrito por

Úrsula Teles

Acadêmica de Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de ensino, pesquisa e extensão relacionados à inovação em saúde e tecnologias digitais aplicadas à enfermagem. Possui interesse em saúde digital e inteligência artificial, com foco na aplicação dessas tecnologias no cuidado em enfermagem na área de urgência e emergência.

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