Enfermagem

Estudo analisa como estudantes de enfermagem percebem a IA entre promessa e risco

Úrsula Teles 4 de setembro de 2026 8 min de leitura

Neste artigo

Inteligência Artificial e formação em enfermagem já não são temas do futuro. Eles entraram de vez no presente das escolas, hospitais e serviços de saúde.

Um estudo publicado no periódico Nurse Education Today investigou como estudantes de enfermagem e obstetrícia percebem a presença da IA e de tecnologias robóticas no cuidado centrado na pessoa.

Segundo o resumo publicado, a pesquisa analisou não apenas entusiasmo ou receio diante dessas ferramentas, mas também os fatores cognitivos, éticos e relacionais que moldam a disposição para usá-las.

Isso importa muito para a prática profissional.

A forma como futuros enfermeiros entendem a IA hoje influencia diretamente como essas soluções serão adotadas amanhã, em contextos como documentação, apoio à decisão clínica, monitoramento e educação em saúde.

A adoção responsável da IA na enfermagem não depende só da tecnologia. Depende de como os profissionais enxergam seu valor, seus limites e seu impacto no cuidado humano.

Por que este estudo chama atenção

Nos últimos anos, a conversa sobre IA na saúde ficou mais intensa.

Ferramentas de apoio à decisão, modelos generativos, sistemas preditivos e automações administrativas passaram a ocupar espaço no debate clínico e acadêmico.

Na enfermagem, isso gera uma dupla pressão.

De um lado, há a expectativa de que a tecnologia ajude a reduzir carga burocrática, melhorar fluxos e ampliar a segurança.

Do outro, existe a preocupação legítima com desumanização, viés algorítmico, dependência excessiva e perda de autonomia profissional.

O estudo parte exatamente dessa tensão.

De acordo com o abstract, os autores buscaram entender como estudantes de enfermagem e obstetrícia percebem o uso de IA e de cuidados assistidos por robôs, e como esses julgamentos se relacionam com prontidão e disposição para adoção.

Mesmo sendo um estudo voltado a estudantes, o tema é extremamente relevante para a assistência.

Isso porque a cultura profissional sobre tecnologia começa a ser moldada antes mesmo da entrada plena no mercado de trabalho.

O que o resumo do estudo permite afirmar

Como não foi utilizado o artigo completo nesta produção, é importante manter uma leitura cuidadosa do que está sustentado pelo resumo publicado.

Segundo os autores, a integração de inteligência artificial e tecnologias robóticas no cuidado em saúde está crescendo.

Por isso, torna-se essencial compreender como futuros profissionais enxergam essas inovações.

O estudo explorou as perspectivas de estudantes de enfermagem e obstetrícia sobre o uso dessas tecnologias no cuidado.

Também examinou fatores cognitivos, éticos e ligados ao cuidado centrado na pessoa que influenciam sua prontidão e vontade de utilizá-las.

  • Dimensão cognitiva , envolve como os estudantes compreendem o que a IA faz, onde ajuda e onde pode falhar.
  • Dimensão ética , inclui preocupações com segurança, responsabilidade, privacidade e justiça.
  • Dimensão relacional , diz respeito ao medo de que a tecnologia afaste o cuidado da experiência humana.

Esse tripé é muito útil para a enfermagem.

Ele mostra que a adoção tecnológica não depende apenas de saber apertar botões ou usar uma plataforma nova.

Ela depende de confiança, sentido clínico e coerência com os valores do cuidado.

Entre o utópico e o distópico: a ambivalência é normal

O próprio título do estudo já traz uma pergunta forte: estamos diante de um cenário utópico ou distópico?

Na prática, essa ambivalência faz sentido.

A IA pode ajudar o enfermeiro a identificar riscos mais cedo, organizar informações e apoiar decisões em ambientes de grande pressão.

Ao mesmo tempo, também pode introduzir novos erros, reforçar desigualdades ou empurrar o trabalho para uma lógica excessivamente mecanizada.

Na rotina da enfermagem, essa discussão aparece em várias situações.

  • Documentação clínica , sistemas inteligentes podem acelerar registros, mas exigem revisão crítica.
  • Monitoramento , alertas automatizados podem apoiar vigilância, mas também gerar fadiga de alarme.
  • Educação e treinamento , simuladores e agentes conversacionais podem ampliar aprendizado, mas não substituem supervisão qualificada.

É justamente por isso que percepções positivas ou negativas importam.

Se a formação enfatiza apenas eficiência, o risco é produzir uma adoção superficial.

Se enfatiza apenas medo, o resultado pode ser resistência improdutiva.

O ponto maduro está no meio: desenvolver uma postura crítica, curiosa e responsável.

Na enfermagem, tecnologia boa não é a que impressiona. É a que melhora decisões, protege o paciente e preserva a centralidade do cuidado humano.

O que isso significa para a prática da enfermagem

Mesmo quando a pesquisa foca estudantes, ela conversa diretamente com líderes, docentes e enfermeiros assistenciais.

Isso acontece porque a implementação de IA em saúde fracassa quando ignora o fator humano.

Sistemas tecnicamente robustos podem ser rejeitados se parecerem opacos, injustos ou incompatíveis com o fluxo real de trabalho.

Na enfermagem, a adoção tende a ser mais consistente quando algumas condições estão presentes.

  • Capacitação prática , profissionais precisam entender limites, riscos e usos adequados.
  • Governança clínica , decisões apoiadas por IA devem ter supervisão humana clara.
  • Desenho centrado no cuidado , a ferramenta precisa servir ao paciente e ao fluxo assistencial, não o contrário.

Esse tipo de raciocínio é especialmente importante em áreas nas quais a IA já começa a aparecer com mais frequência.

Entre elas estão triagem, predição de deterioração clínica, apoio à documentação, chatbots educativos e sistemas de monitoramento remoto.

Em todas essas frentes, o enfermeiro continua sendo peça central.

Não como mero operador da ferramenta, mas como profissional que interpreta contexto, avalia riscos, comunica incertezas e decide quando confiar ou contestar uma sugestão automatizada.

Aspectos éticos que não podem ser tratados como detalhe

Um dos pontos mais valiosos do estudo é destacar que a aceitação da IA não é só uma questão de utilidade.

Ela também passa por ética.

Na enfermagem, isso inclui perguntas muito concretas.

Quem responde quando um sistema erra?

Como proteger dados sensíveis?

O algoritmo funciona bem para diferentes perfis de pacientes?

A recomendação automatizada é explicável o suficiente para sustentar uma decisão segura?

Essas questões não são teóricas.

Elas afetam segurança do paciente, responsabilidade profissional e confiança institucional.

Por isso, inserir IA na formação sem discutir ética seria um atalho perigoso.

O resumo sugere, corretamente, que fatores éticos moldam prontidão e disposição para adoção.

Isso significa que a resistência nem sempre é atraso.

Muitas vezes, ela é sinal de prudência profissional.

Cuidado centrado na pessoa continua sendo o eixo

Outro ponto importante do estudo é a referência ao person-centred care.

Esse conceito é decisivo para separar inovação real de fetiche tecnológico.

Na prática, uma ferramenta só faz sentido se ajudar o cuidado a ser mais seguro, mais individualizado e mais responsivo às necessidades do paciente.

Se a IA economiza minutos, mas enfraquece escuta, vínculo ou julgamento clínico, seu valor precisa ser reavaliado.

Por outro lado, quando ela retira tarefas repetitivas e libera tempo mental para observação, comunicação e planejamento do cuidado, pode se tornar uma aliada relevante.

Esse equilíbrio deve ser aprendido desde a formação.

Estudantes precisam ser preparados para usar tecnologia sem perder aquilo que define a enfermagem como prática humana, ética e relacional.

Como serviços e escolas podem agir desde já

O estudo reforça uma mensagem prática: preparar pessoas para a IA é tão importante quanto adquirir ferramentas.

Hospitais, faculdades e lideranças de enfermagem podem agir em várias frentes.

  • Inserir alfabetização em IA nas trilhas de formação, com linguagem acessível e foco clínico.
  • Usar casos reais e simulações para discutir benefícios, falhas e dilemas éticos.
  • Envolver enfermeiros e estudantes na avaliação de novas soluções antes da adoção ampla.

Essa abordagem ajuda a reduzir tanto a adesão ingênua quanto a rejeição automática.

Em vez disso, cria-se uma cultura de avaliação crítica.

E isso é exatamente o que a enfermagem precisa em um cenário de transformação digital acelerada.

Conclusão

O estudo sobre percepções de estudantes de enfermagem e obstetrícia diante da IA e do cuidado assistido por robôs toca em uma questão central para o presente da profissão.

Não basta saber que a tecnologia existe.

É preciso entender como ela é percebida, quais valores ela mobiliza e que tipo de prática ela incentiva.

Segundo o resumo publicado, fatores cognitivos, éticos e centrados na pessoa influenciam a prontidão e a disposição para adoção.

Essa é uma mensagem valiosa para quem forma profissionais e para quem lidera equipes.

O futuro da IA na enfermagem será menos definido pela potência dos algoritmos e mais pela qualidade das escolhas humanas ao seu redor.

Se a profissão ocupar esse debate com maturidade, senso crítico e foco no paciente, a tecnologia pode deixar de ser ameaça abstrata e virar ferramenta concreta de apoio ao cuidado.

Referência

Utopian or dystopian? A mixed-methods study of nursing and midwifery students’ perceptions of artificial intelligence and robot-assisted person-centred care in education. Nurse Education Today. 2026. DOI: 10.1016/j.nedt.2026.107049.

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Escrito por

Úrsula Teles

Acadêmica de Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de ensino, pesquisa e extensão relacionados à inovação em saúde e tecnologias digitais aplicadas à enfermagem. Possui interesse em saúde digital e inteligência artificial, com foco na aplicação dessas tecnologias no cuidado em enfermagem na área de urgência e emergência.

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