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A inteligência artificial generativa está revolucionando diversos setores, e a enfermagem não é exceção. Ferramentas como ChatGPT, Gemini e DeepSeek prometem auxiliar profissionais na criação de documentação clínica, incluindo os fundamentais planos de cuidados de enfermagem.
Mas será que essas ferramentas realmente entregam o que prometem? Um estudo recente publicado no Journal of Clinical Nursing em março de 2026 buscou responder exatamente essa pergunta.
A pesquisa conduzida por Yilmaz Akyaz e colaboradores avaliou a capacidade dessas três ferramentas de IA em gerar planos de cuidados clinicamente precisos, completos e legíveis, alinhados com as taxonomias padronizadas de enfermagem.
Ferramentas de IA generativa podem apoiar a produção de planos de cuidados estruturados, mas suas limitações em completude e legibilidade indicam que devem ser consideradas apenas como rascunhos preliminares que requerem revisão e adaptação por especialistas.
O Desafio da Documentação na Enfermagem
A elaboração de planos de cuidados de enfermagem é uma das tarefas mais importantes e, ao mesmo tempo, mais demoradas na prática clínica diária. Esses documentos guiam todas as intervenções e são essenciais para a continuidade do cuidado.
Os planos de cuidados devem seguir taxonomias padronizadas reconhecidas internacionalmente. Entre as mais utilizadas estão a NANDA International (diagnósticos de enfermagem), a NIC (Classificação das Intervenções de Enfermagem) e a NOC (Classificação dos Resultados de Enfermagem).
Manter-se atualizado com essas taxonomias e aplicá-las corretamente exige tempo, conhecimento e experiência consideráveis. É nesse contexto que a IA generativa surge como potencial aliada.
Metodologia do Estudo
Os pesquisadores adotaram um design comparativo descritivo rigoroso. Foram desenvolvidos 10 cenários clínicos validados por especialistas, representando cinco especialidades fundamentais da enfermagem.
As especialidades contempladas incluíram:
- Fundamentos de Enfermagem — conceitos básicos e procedimentos essenciais
- Enfermagem Médica — cuidados em condições clínicas diversas
- Enfermagem Cirúrgica — cuidados perioperatórios e pós-cirúrgicos
- Enfermagem Pediátrica — cuidados específicos para crianças
- Enfermagem Psiquiátrica — saúde mental e cuidados psicológicos
Cada ferramenta de IA respondeu a quatro prompts padronizados baseados nas versões mais recentes das taxonomias NANDA-I, NIC e NOC. As respostas foram então avaliadas por especialistas utilizando escalas validadas.
Critérios de Avaliação
A análise das respostas geradas pela IA considerou múltiplas dimensões críticas para a aplicabilidade clínica.
Os avaliadores especialistas examinaram:
- Qualidade geral — estrutura, organização e apresentação do plano
- Precisão clínica — alinhamento com as melhores práticas e evidências
- Completude — inclusão de todos os elementos necessários
- Legibilidade — facilidade de compreensão e aplicação prática
Essa avaliação multidimensional permitiu uma análise abrangente das capacidades e limitações de cada ferramenta.
Resultados: DeepSeek Apresenta Leve Vantagem
Segundo o estudo, todas as três ferramentas produziram planos de cuidados de qualidade moderada a alta. No entanto, diferenças significativas emergiram na análise detalhada.
O DeepSeek demonstrou precisão e completude ligeiramente superiores em comparação com Gemini e ChatGPT. Essa vantagem foi consistente em diversos cenários avaliados.
Um achado interessante foi que os cenários de enfermagem cirúrgica apresentaram os melhores resultados entre todas as especialidades. Os pesquisadores atribuem isso à natureza mais protocolizada e orientada por diretrizes do cuidado perioperatório.
Em áreas onde os protocolos são bem estabelecidos e padronizados, a IA consegue replicar o conhecimento de forma mais consistente e precisa.
Limitações Identificadas
Apesar dos resultados promissores, o estudo revelou limitações importantes que os profissionais de enfermagem precisam considerar antes de adotar essas ferramentas.
A principal preocupação identificada foi que todos os outputs foram considerados incompletos. Nenhuma das ferramentas conseguiu gerar planos de cuidados totalmente prontos para uso clínico sem intervenção humana.
Outro problema significativo foi a legibilidade. Os textos gerados foram escritos em nível universitário, o que pode dificultar sua aplicação prática imediata por toda a equipe de enfermagem.
Documentos clínicos precisam ser claros, diretos e acessíveis para garantir que as intervenções sejam executadas corretamente por todos os membros da equipe.
Variação Entre Especialidades
O desempenho das ferramentas variou consideravelmente conforme a especialidade de enfermagem do cenário apresentado.
Áreas com protocolos mais estruturados, como a enfermagem cirúrgica, obtiveram melhores resultados. Isso sugere que a IA se beneficia de contextos onde há caminhos clínicos bem definidos.
Por outro lado, especialidades que exigem maior individualização do cuidado, como a enfermagem psiquiátrica, apresentaram resultados mais variáveis. O julgamento clínico humano permanece essencial nesses contextos.
Essa variação reforça a necessidade de revisão especializada antes da aplicação de qualquer plano gerado por IA.
Implicações para a Prática Clínica
Os resultados do estudo têm implicações diretas para enfermeiros, educadores, gestores e formuladores de políticas de saúde que consideram integrar IA em seus fluxos de trabalho.
A principal conclusão é que a IA generativa pode ser uma ferramenta auxiliar valiosa, mas não substitui o julgamento clínico profissional. Os planos gerados devem ser tratados como rascunhos iniciais.
Para utilizar essas ferramentas de forma segura e eficaz, algumas práticas são recomendadas:
- Revisão obrigatória — todo plano gerado deve ser revisado por enfermeiro qualificado
- Personalização — adaptar o conteúdo às necessidades específicas de cada paciente
- Verificação de taxonomias — confirmar alinhamento com NANDA-I, NIC e NOC atualizados
- Simplificação da linguagem — ajustar a legibilidade para uso prático da equipe
- Documentação do processo — registrar que o plano foi assistido por IA e revisado
O Papel do Enfermeiro na Era da IA
Este estudo reforça um ponto fundamental: a inteligência artificial não substitui o enfermeiro. Ela amplifica suas capacidades e pode acelerar processos, mas o julgamento clínico humano permanece insubstituível.
O enfermeiro traz ao cuidado elementos que a IA não consegue replicar: empatia, intuição clínica desenvolvida pela experiência, e a capacidade de perceber nuances sutis no estado do paciente.
O estudo examinou se a IA generativa pode auxiliar confiavelmente na criação de planos de cuidados de enfermagem. Todas as ferramentas tiveram desempenho moderado, mas os outputs foram incompletos e de difícil leitura. Os achados são relevantes para enfermeiros clínicos, educadores e gestores em todo o mundo que exploram a IA nos fluxos de trabalho de enfermagem.
À medida que a IA evolui, os profissionais de enfermagem devem desenvolver competências digitais para avaliar criticamente essas ferramentas e utilizá-las de forma ética e segura.
Perspectivas Futuras
O campo da IA generativa está em rápida evolução. As limitações identificadas neste estudo provavelmente serão abordadas em versões futuras dessas ferramentas.
Espera-se que futuras iterações melhorem em aspectos como completude dos planos, adequação da linguagem ao contexto clínico e personalização baseada no histórico do paciente.
Enquanto isso, estudos como este são essenciais para guiar a implementação responsável da IA na enfermagem, garantindo que a segurança do paciente permaneça como prioridade absoluta.
Conclusão
O estudo de Yilmaz Akyaz e colaboradores oferece evidências valiosas sobre o estado atual da IA generativa aplicada à documentação de enfermagem.
As ferramentas ChatGPT, Gemini e DeepSeek demonstraram capacidade de produzir planos de cuidados estruturados e de qualidade moderada a alta. O DeepSeek apresentou leve vantagem em precisão e completude.
Entretanto, as limitações em completude e legibilidade exigem que esses outputs sejam tratados como rascunhos preliminares, sempre sujeitos à revisão e adaptação por profissionais qualificados.
Para enfermeiros, a mensagem é clara: abracem a tecnologia como ferramenta de apoio, mas nunca abram mão do seu julgamento clínico e expertise profissional. A IA é uma aliada, não uma substituta.
Referência
Yilmaz Akyaz D, et al. Evaluating Artificial Intelligence-Generated Nursing Care Plans: A Scenario-Based Comparative Study of Accuracy, Completeness, Quality, and Readability. Journal of Clinical Nursing. 2026. DOI: 10.1111/jocn.70267