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Buscar, filtrar e aplicar informação é uma parte invisível, mas decisiva, do trabalho em saúde. Para a enfermagem, isso aparece no plantão inteiro: interpretar prescrições, confirmar protocolos, checar interações, atualizar condutas, orientar pacientes e, ao mesmo tempo, lidar com sistemas, formulários e mensagens.
Um artigo de revisão assinado por Marcin Trzmielewski analisou a produção científica sobre as atividades informacionais de profissionais de saúde. Segundo o autor, esse tema vem sendo investigado desde a década de 1930 e ganhou força especialmente a partir dos anos 2000, com pesquisas em diferentes países e áreas (ciência da informação, biblioteconomia, comunicação e medicina).
Informação, no cuidado, não é “extra”. Ela é a infraestrutura silenciosa que sustenta decisões clínicas, comunicação segura e continuidade assistencial.
Neste artigo, vamos traduzir o que essa revisão aponta, e transformar em um guia prático para a enfermagem: onde nasce a sobrecarga informacional, por que ela impacta o cuidado, e como ferramentas (inclusive de inteligência artificial) podem ajudar, sem prometer milagres.
O que o estudo revisou (e por que isso importa)
De acordo com o próprio abstract, Trzmielewski revisou 58 trabalhos publicados sobre atividades informacionais de profissionais de saúde. A análise mostra que o tema é global e continua evoluindo, com destaque para contribuições de pesquisadores dos Estados Unidos, da França e de países escandinavos.
O foco não é “apenas” tecnologia. É comportamento e contexto: como profissionais procuram informação, o que consultam, por que escolhem uma fonte e não outra, e quais barreiras aparecem na rotina real.
Quando a equipe precisa de informação: os gatilhos do mundo real
Na conclusão, o autor descreve que as situações que levam profissionais de saúde a utilizar informação são variadas. Isso inclui desde a atualização de conhecimentos até demandas imediatas do cuidado.
- Atualização clínica (guidelines, protocolos, novas evidências)
- Cuidado direto (decisões à beira leito, interpretação de sinais e sintomas)
- Pesquisa e ensino (formação, educação permanente, projetos)
- Gestão e administração (processos, indicadores, auditoria, fluxos)
- Interação com a patientela (responder dúvidas, orientar, educar)
Para a enfermagem, isso explica uma sensação comum: a informação “aparece” em camadas. Você não abre uma fonte única e pronto. Você navega entre prontuário, prescrição, protocolos institucionais, mensagens da equipe e, quando necessário, fontes externas.
Atividade invisível: por que é tão difícil separar “informar-se” de “trabalhar”
Um ponto forte da conclusão é a ideia de que as atividades informacionais, muitas vezes, viram trabalho invisível. Elas são moldadas pela atividade principal e pressionadas por tempo, urgência e interrupções.
Boa parte do que garante segurança (checar, confirmar, comparar, registrar) acontece fora do holofote, mas consome energia cognitiva e tempo do plantão.
Isso é importante porque, quando a organização tenta “otimizar” a rotina, costuma medir apenas o visível: procedimentos, tempos de tarefa, número de registros. A revisão lembra que existe um componente informacional que, se ignorado, vira sobrecarga e aumenta o risco de falhas.
O ambiente informacional em saúde: abundante, heterogêneo e nem sempre amigável
Segundo o autor, profissionais de saúde atuam em um ambiente informacional marcado por abundância e heterogeneidade de documentos e dispositivos. Na prática, isso significa lidar com fontes especializadas e com documentos de atividade, impressos e digitais.
- Recursos especializados (bases, guias clínicos, literatura científica)
- Documentos de atividade (rotinas, POPs, checklists, formulários, relatórios)
- Fontes generalistas (materiais de referência ampla, conteúdos educativos)
A revisão também chama atenção para o papel dos dispositivos digitais: eles são numerosos, variados e, às vezes, pouco ergonômicos. Além disso, exigem competências de literacia informacional, o que impacta diretamente a produção, a busca, a consulta e a organização da informação.
O que isso muda para a prática da enfermagem
Se informação é infraestrutura do cuidado, então gerir informação é também gerir segurança e qualidade. Três implicações práticas aparecem com clareza quando trazemos a revisão para o cotidiano da enfermagem.
- Padronizar para reduzir ambiguidade — protocolos e formulários bem desenhados diminuem retrabalho e “caça” a dados.
- Treinar para buscar melhor — dificuldades em consultas complexas e necessidade de formação em busca documental aparecem como tema recorrente.
- Projetar sistemas com a equipe — quando ferramentas são pouco ergonômicas, a tendência é criar atalhos inseguros ou depender de fontes informais.
Outro ponto relevante do texto é que as atividades informacionais variam conforme profissão e contexto. O autor menciona que há diferenças de necessidades e usos de informação entre perfis profissionais (por exemplo, entre médicos de contextos distintos e entre médicos e equipes paramédicas), o que reforça uma lição para gestores: não existe solução única.
E onde entra a Inteligência Artificial (sem exageros)
Na parte final da conclusão, o autor aponta a inteligência artificial conexionista aplicada à saúde como um eixo atual de interesse, com promessas em personalização e predição. Ele cita possibilidades como apoio à decisão clínica, pré-diagnóstico, gestão de fluxo de pacientes e análise de eficiência financeira e clínica.
Ao mesmo tempo, o texto lembra que existem dúvidas sobre confiabilidade dos modelos e sobre decisões tomadas com base em algoritmos. Para a enfermagem, uma forma responsável de olhar para isso é perguntar: “Esse sistema melhora a minha atividade informacional ou só cria mais uma tela?”
Checklist rápido: como avaliar uma ferramenta informacional no seu serviço
Seja um novo módulo do prontuário, seja um alerta inteligente, vale passar por um checklist simples antes de “abraçar” a novidade.
- Relevância — o que chega é realmente necessário para o cuidado, ou é ruído?
- Prioridade e timing — aparece na hora certa do fluxo, ou interrompe sem necessidade?
- Transparência — dá para entender por que sugeriu/alertou?
- Ergonomia — reduz cliques e busca, ou aumenta a carga cognitiva?
- Treinamento — existe capacitação rápida, objetiva e repetível?
- Governança — quem revisa regras, atualiza protocolos e responde quando algo falha?
Conclusão: informação bem cuidada é cuidado mais seguro
A revisão de Trzmielewski reforça uma ideia poderosa: as atividades informacionais são parte estrutural do trabalho em saúde. Elas sustentam atualização, cuidado, ensino, pesquisa e gestão, e acontecem em ambientes com excesso de documentos, ferramentas e interrupções.
Para a enfermagem, o caminho prático é duplo: fortalecer literacia informacional (buscar melhor, filtrar melhor, documentar melhor) e exigir ferramentas que respeitem o fluxo do cuidado. IA pode ajudar, mas só quando entra para simplificar, não para complicar.
Referência
Trzmielewski, M. Les activités informationnelles des professionnels de santé : état de l’art dans une perspective interdisciplinaire et internationale. AIDAinformazioni: Rivista di Scienze dell’informazione, 2023, 41(3-4), p. 157-178. DOI: 10.57574/596532919.