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IA generativa no treinamento de enfermagem: artigo propõe uso do modelo ADDIE para acelerar educação profissional

Úrsula Teles 7 de abril de 2026 5 min de leitura

Neste artigo

Uma nova proposta para acelerar (sem improviso) a capacitação de profissionais de enfermagem com apoio de IA generativa acaba de ser publicada no Journal of Continuing Education in Nursing. O artigo, disponibilizado em 6 de abril de 2026, descreve como profissionais de Desenvolvimento Profissional em Enfermagem (NPD, na sigla em inglês) podem integrar ferramentas de IA generativa ao conhecido modelo de design instrucional ADDIE (Analisar, Desenhar, Desenvolver, Implementar e Avaliar), com o objetivo de produzir educação corporativa mais rápida, personalizada e alinhada às prioridades do serviço.

Em um momento em que hospitais e redes de atenção enfrentam rotatividade, sobrecarga e atualização constante de protocolos, a promessa é tentadora: usar a IA para reduzir o tempo de produção de materiais, adaptar conteúdos ao perfil do público e apoiar a avaliação de resultados. Ao mesmo tempo, os próprios autores ressaltam que benefícios e riscos precisam ser tratados “dentro de um método”, para não transformar a tecnologia em atalho perigoso.

“Quando intencionalmente integrada ao ADDIE, a IA generativa oferece uma estratégia estruturada, porém flexível, para operacionalizar inovação e manter a educação alinhada às metas organizacionais.”

O que o artigo propõe

A ideia central é simples: em vez de usar IA generativa apenas para “escrever slides” ou “resumir textos”, o artigo sugere mapear usos possíveis em cada etapa do ADDIE, do diagnóstico de necessidades até a avaliação pós-treinamento. Na prática, isso inclui desde análise de lacunas de competência até a criação de materiais e instrumentos de checagem de aprendizagem.

  • Agilidade: acelerar rascunhos de planos de aula, roteiros, casos clínicos simulados e materiais de apoio.
  • Personalização: adaptar exemplos, linguagem e nível de profundidade para diferentes unidades e perfis de profissionais.
  • Monitoramento: apoiar o desenho de avaliações e a leitura de feedbacks para ajustes rápidos no treinamento.

Por que isso importa para a enfermagem

Na ponta, enfermeiros e técnicos lidam com mudanças frequentes em fluxos de atendimento, dispositivos e sistemas, além de novas evidências e exigências regulatórias. Programas de educação permanente costumam correr contra o relógio, especialmente quando um novo protocolo precisa chegar à equipe de forma padronizada e compreensível, sem comprometer a segurança do paciente.

Ao enquadrar a IA generativa dentro de um modelo instrucional amplamente adotado, o artigo tenta responder a uma dor recorrente: como “ganhar tempo” sem perder controle de qualidade. Para a enfermagem, isso significa manter foco no que é crítico, como checagem de doses, prevenção de eventos adversos e comunicação efetiva, enquanto tarefas de produção (rascunhos, variações de exemplos, organização de conteúdo) podem ser automatizadas com governança.

Como a IA entra em cada fase do ADDIE (na visão dos autores)

Analisar: apoiar a consolidação de dados de auditoria, indicadores e feedbacks para identificar temas prioritários de capacitação. Desenhar: sugerir objetivos de aprendizagem e estratégias (por exemplo, simulação, estudo de caso, microlearning), mantendo coerência com o público e o contexto. Desenvolver: acelerar a criação de roteiros, perguntas de avaliação e materiais de apoio, com revisão humana. Implementar: produzir comunicações e lembretes para engajar a equipe e orientar a execução do treinamento. Avaliar: organizar respostas de formulários e comentários para identificar padrões, dúvidas persistentes e pontos do conteúdo que precisam de reforço.

O texto também aponta o outro lado do balcão: riscos de viés, possibilidade de alucinações (informações erradas apresentadas com confiança), inconsistências de linguagem e, principalmente, o desafio de proteger dados sensíveis ao usar ferramentas externas. Em outras palavras, IA pode acelerar, mas não substitui o papel do enfermeiro educador como curador e responsável pelo conteúdo.

O que muda na prática (e o que não muda)

Se a proposta ganhar tração, a mudança mais provável é um “novo padrão” de produção: conteúdos nascem mais rápido, com múltiplas versões, e a equipe de educação passa a investir mais tempo em revisão crítica, validação com especialistas e acompanhamento de resultados. O que não muda é o ponto central da segurança: decisões de cuidado e protocolos devem continuar baseados em evidência, com validação institucional e responsabilidade profissional.

Para serviços de saúde no Brasil, a adoção tende a depender de dois fatores: (1) políticas claras de uso de IA (o que pode ou não pode ser inserido em ferramentas), e (2) capacitação mínima de quem cria os treinamentos para escrever bons comandos, checar fontes e identificar erros. Sem isso, o ganho de velocidade pode virar retrabalho.

Fonte

Windey M, Bruewer J. Leveraging Generative AI Within the ADDIE Model: A Transformative Approach for Nursing Professional Development. Journal of Continuing Education in Nursing. Publicado em 6 abr 2026 (ahead of print). Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41940653/.

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Escrito por

Úrsula Teles

Acadêmica de Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de ensino, pesquisa e extensão relacionados à inovação em saúde e tecnologias digitais aplicadas à enfermagem. Possui interesse em saúde digital e inteligência artificial, com foco na aplicação dessas tecnologias no cuidado em enfermagem na área de urgência e emergência.

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