Enfermagem

Inteligência Artificial na Enfermagem Ganha Força na Gestão e na Produção Científica, Mostra Estudo Bibliométrico

Úrsula Teles 30 de agosto de 2026 8 min de leitura

Neste artigo

Inteligência artificial na enfermagem já deixou de ser apenas uma promessa distante.

Um artigo publicado no Journal of Nursing Management analisou como esse tema vem sendo estudado ao longo das últimas décadas e mostrou um crescimento importante do interesse acadêmico na área.

Segundo o resumo do estudo, os autores mapearam publicações entre 1984 e março de 2022 para entender onde, como e em quais frentes a IA tem sido aplicada no contexto da enfermagem.

O ponto central é claro: a IA tem potencial para fortalecer a gestão em enfermagem, melhorar a qualidade assistencial, apoiar a segurança do paciente e ampliar a comunicação das equipes.

Segundo os autores, a inteligência artificial vem ganhando espaço na enfermagem e já aparece associada a temas como registro assistido, tomada de decisão e colaboração interdisciplinar.

Por que esse estudo importa para a enfermagem

Nem todo artigo sobre IA em saúde fala diretamente com a rotina da enfermagem.

Este trabalho é relevante justamente porque olha para o campo de forma ampla e organizada.

Em vez de testar uma ferramenta específica, ele investiga as tendências de produção científica, os principais países, instituições, áreas do conhecimento e palavras-chave ligadas ao uso da IA em enfermagem.

Isso ajuda gestores, pesquisadores e enfermeiros a entenderem onde a discussão está mais madura.

Também mostra quais temas já receberam bastante atenção e quais ainda precisam de evidências mais robustas.

Quando se fala em transformação digital, esse tipo de visão panorâmica é valioso.

Ela evita decisões baseadas apenas em modismos e permite enxergar a direção real da literatura científica.

O que os pesquisadores analisaram

De acordo com o abstract, os autores realizaram uma análise bibliométrica.

Esse tipo de método não mede diretamente o efeito clínico de uma tecnologia no paciente.

O objetivo aqui é outro: observar padrões de publicação e relações entre temas, autores, instituições e campos de estudo.

Para isso, foram pesquisados artigos publicados entre 1984 e março de 2022.

Os dados vieram de seis bases importantes: Embase, Scopus, PubMed, CINAHL, Web of Science e MEDLINE.

Além disso, o estudo utilizou o software VOSviewer, bastante conhecido em análises bibliométricas por ajudar a visualizar redes de palavras-chave e conexões científicas.

  • Período analisado: 1984 a março de 2022
  • Fontes de busca: seis bases bibliográficas internacionais
  • Foco da análise: produção científica sobre IA na enfermagem
  • Ferramenta metodológica: bibliometria com apoio do VOSviewer

Na prática, isso significa que o estudo buscou responder perguntas como:

  • Quem publica mais sobre IA em enfermagem?
  • Quais países e instituições lideram esse movimento?
  • Quais palavras-chave aparecem com maior frequência?
  • Quais aplicações estão mais associadas ao tema?

Os principais achados do artigo

O resumo aponta que a maior parte dos artigos relevantes veio de instituições dos Estados Unidos.

Também destaca a atuação da League of European Research Universities como importante polo de produção científica nesse campo.

Outro achado interessante é a diversidade de áreas conectadas ao tema.

Os autores identificaram concentração de estudos em enfermagem, informática em saúde, ciência da computação, inteligência artificial, serviços de saúde e até física.

Isso reforça um ponto importante: a IA aplicada à enfermagem é, por natureza, interdisciplinar.

Ela depende de diálogo entre assistência, gestão, tecnologia, ciência de dados e desenho de processos.

Entre as palavras-chave mais comuns, apareceram machine learning, care, artificial intelligence, natural language processing, prediction e nurse.

Esses termos ajudam a perceber quais frentes estão puxando a discussão atual.

  • Machine learning indica foco em previsão e reconhecimento de padrões
  • Natural language processing sugere interesse em documentação e interpretação de registros
  • Prediction aponta para uso em alertas, risco clínico e apoio à decisão
  • Nurse mostra que a profissão segue no centro do debate, e não apenas como usuária periférica da tecnologia

O estudo sugere que a inteligência artificial pode contribuir para a gestão da enfermagem ao apoiar qualidade, segurança, comunicação em equipe e novos arranjos de colaboração científica.

O que isso diz sobre gestão em enfermagem

Mesmo sendo um estudo bibliométrico, os resultados têm implicações gerenciais bastante úteis.

Quando certas palavras-chave e áreas passam a aparecer com frequência, isso sinaliza onde a prática pode evoluir mais rápido nos próximos anos.

No caso deste artigo, há três recados fortes para a gestão.

O primeiro é que a documentação assistida por IA já se consolidou como um eixo de interesse.

Isso conversa diretamente com um dos grandes gargalos do trabalho de enfermagem: o peso do registro manual.

O segundo recado é o avanço de sistemas de apoio à tomada de decisão.

Ferramentas desse tipo podem ajudar a priorizar riscos, organizar informações e reduzir atrasos no reconhecimento de situações críticas.

O terceiro ponto é a necessidade de colaboração entre domínios.

Sem integração entre enfermeiros, gestores, analistas de dados, TI e liderança institucional, a adoção tende a ficar superficial.

Para quem ocupa cargos de coordenação, supervisão ou gerência, isso importa porque a tecnologia não entra em um serviço sozinha.

Ela precisa de governança, critérios de qualidade, treinamento e revisão contínua.

Aplicações práticas que ganham força

O abstract cita explicitamente temas como registro médico assistido por inteligência artificial e tomada de decisão.

Mesmo sem detalhar ferramentas específicas, isso permite identificar aplicações práticas já bastante discutidas na literatura.

  • Documentação clínica para reduzir retrabalho e padronizar registros
  • Modelos preditivos para apoiar identificação precoce de risco
  • Processamento de linguagem natural para organizar grandes volumes de texto clínico
  • Análise de dados assistenciais para orientar gestão de qualidade e segurança

Essas frentes fazem sentido porque atacam problemas reais do cotidiano.

Enfermeiros lidam com alta demanda informacional, decisões rápidas e necessidade constante de comunicação precisa.

Se bem implementada, a IA pode funcionar como uma camada de apoio.

Mas é importante manter o pé no chão.

Como o texto disponível é o resumo do artigo, não dá para afirmar que o estudo comprovou impacto clínico direto em cada uma dessas aplicações.

O que ele mostra é que esses temas estão ganhando espaço no corpo da literatura científica.

Onde ainda existem lacunas

Esse talvez seja um dos pontos mais honestos e mais importantes do estudo.

Os autores observam que ainda são necessários estudos de alta qualidade além do escopo da educação em saúde.

Também destacam a necessidade de investigar melhor a aceitabilidade e a implementação efetiva das tecnologias de IA.

Isso faz diferença porque entusiasmo tecnológico não substitui evidência prática.

Uma solução pode parecer promissora no laboratório e ainda assim falhar quando chega ao plantão.

Entre os desafios que costumam aparecer nesse cenário, vale destacar:

  • Integração com fluxos reais de trabalho
  • Treinamento das equipes para uso seguro e crítico
  • Qualidade dos dados que alimentam os sistemas
  • Governança e ética na adoção de ferramentas automatizadas

Para a enfermagem, isso significa que o avanço da IA precisa caminhar junto com competência digital, liderança clínica e avaliação contínua.

Como ler esse avanço sem cair em exageros

Existe uma tentação comum quando se fala em IA: imaginar que a tecnologia vai substituir o julgamento do enfermeiro.

O conjunto de achados citado no resumo aponta para outra direção.

A discussão parece estar mais ligada a apoio, organização, previsão e comunicação do que a substituição do cuidado humano.

Isso é coerente com a natureza da profissão.

A enfermagem não é feita apenas de dados.

Ela envolve vínculo, observação clínica, contexto, priorização e sensibilidade ética.

Ferramentas inteligentes podem ampliar capacidade operacional.

Mas continuam dependendo de supervisão humana, interpretação qualificada e responsabilidade profissional.

Talvez a melhor leitura seja esta: a IA pode fortalecer a prática de enfermagem quando entra como suporte e não como atalho cego.

O futuro mais promissor não parece ser o da substituição do enfermeiro, mas o da enfermagem ampliada por dados, tecnologia e melhor capacidade de decisão.

Conclusão

O artigo Trends in artificial intelligence in nursing: Impacts on nursing management oferece um retrato útil da evolução da pesquisa sobre IA na enfermagem.

Segundo o resumo publicado, o campo vem crescendo, se tornando mais interdisciplinar e se aproximando de temas concretos como registro assistido, predição, apoio à decisão, qualidade e segurança.

Para gestores e profissionais, a principal mensagem é dupla.

Primeiro, a inteligência artificial já faz parte da agenda estratégica da enfermagem.

Segundo, ainda é preciso transformar interesse científico em implementação responsável, crítica e bem avaliada.

Em outras palavras, o debate saiu do campo da curiosidade e entrou no campo da gestão.

E isso, por si só, já é um sinal de mudança importante.

Referência

Chang CY, Jen HJ, Su WS. Trends in artificial intelligence in nursing: Impacts on nursing management. Journal of Nursing Management. 2022. DOI: 10.1111/jonm.13770.

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Escrito por

Úrsula Teles

Acadêmica de Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de ensino, pesquisa e extensão relacionados à inovação em saúde e tecnologias digitais aplicadas à enfermagem. Possui interesse em saúde digital e inteligência artificial, com foco na aplicação dessas tecnologias no cuidado em enfermagem na área de urgência e emergência.

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