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Pesquisa mostra que pacientes querem transparência sobre uso de IA na saúde

Úrsula Teles 27 de agosto de 2026 5 min de leitura

Neste artigo

A adoção de inteligência artificial na saúde avança em hospitais, consultórios e sistemas de apoio clínico, mas a percepção dos pacientes ainda está longe de acompanhar esse ritmo. Um levantamento divulgado pelo Pew Research Center em 25 de agosto de 2026 mostra que a maioria dos adultos nos Estados Unidos quer mais transparência sobre quando a IA é usada em seu cuidado, inclusive em tarefas administrativas e de documentação. Para a enfermagem, o recado é direto: inovação sem comunicação clara tende a gerar resistência, insegurança e perda de confiança.

A pesquisa ouviu 3.488 adultos entre 22 e 28 de junho deste ano e identificou um padrão consistente. Segundo o Pew, 72% dos entrevistados consideram extremamente ou muito importante que médicos ou outros profissionais de saúde informem quando estão usando IA no cuidado. O dado chama atenção porque a cobrança por transparência não ficou restrita a aplicações mais sofisticadas, como leitura de exames ou apoio ao diagnóstico. Ela também apareceu em atividades do dia a dia assistencial, como anotações de consulta, renovação de receitas e agendamento.

“Cerca de sete em cada dez adultos nos Estados Unidos dizem que é extremamente ou muito importante que um médico ou outro profissional de saúde lhes diga se está usando IA em seus cuidados”, resume o levantamento do Pew Research Center.

Quando o tema é o uso da tecnologia em processos com impacto direto na decisão clínica, a exigência é ainda maior. O estudo aponta que 81% querem ser avisados se a IA for empregada para analisar exames de imagem, e o mesmo percentual deseja informação prévia quando a ferramenta participa da formulação de diagnósticos. Já 80% defendem transparência quando a tecnologia é usada para explicar resultados laboratoriais. Mesmo em tarefas consideradas de bastidor, a expectativa segue alta: 72% querem saber se a IA está sendo usada para registrar notas durante consultas, 64% para renovação de receitas e 56% para agendamento.

Outro dado relevante é a percepção de controle. Mais da metade dos entrevistados, 53%, afirmou ter pouca ou nenhuma influência sobre a decisão de um serviço de saúde usar IA em seu atendimento. Ao mesmo tempo, 63% disseram que gostariam de ter mais voz sobre esse tema, contra apenas 21% que se declararam confortáveis com o nível atual de participação. Em outras palavras, não se trata apenas de curiosidade tecnológica. Há uma demanda concreta por consentimento, informação e capacidade de escolha.

Para a enfermagem, esse cenário tem implicações práticas importantes. Em muitas instituições, enfermeiros já convivem com ferramentas de IA voltadas à documentação clínica, ao apoio em protocolos, ao monitoramento remoto e à priorização de riscos. Quando essas soluções são implementadas sem explicação adequada ao paciente, o profissional de enfermagem tende a ocupar a linha de frente das dúvidas, das objeções e da mediação ética. É a equipe que costuma traduzir processos, esclarecer fluxos e sustentar a relação de confiança durante a assistência.

  • Transparência passa a ser parte da segurança assistencial, não apenas da comunicação institucional.
  • Documentação com IA exige explicação simples sobre o que a ferramenta faz e o que continua sendo responsabilidade humana.
  • Capacitação da equipe é essencial para que enfermeiros consigam responder perguntas e reduzir ansiedade dos pacientes.

O tema também conversa com a produção científica recente. Em busca realizada no PubMed nas últimas 48 horas, um dos registros mais novos foi o artigo “Avoiding the ‘Desert of the Real’: Preserving Evidence-Based Nursing in the Age of AI”, publicado em 27 de agosto no Journal of Advanced Nursing. Embora seja uma revisão e não uma notícia, a publicação reforça um ponto central para o debate: a incorporação de IA na assistência precisa preservar o julgamento clínico, a prática baseada em evidências e a centralidade do cuidado humano.

Na prática, isso significa que hospitais e clínicas não devem tratar a IA apenas como ganho de eficiência. O estudo do Pew sugere que a aceitação social da tecnologia depende, em grande medida, de como ela é apresentada ao paciente e de quanto espaço existe para questionamento. Para a enfermagem, há uma oportunidade estratégica aí. Profissionais da área podem liderar protocolos de comunicação sobre uso de IA, participar da validação de fluxos e ajudar a definir quais aplicações exigem consentimento explícito ou orientação prévia.

No Brasil, onde cresce o debate regulatório sobre inteligência artificial na saúde, os dados servem como alerta útil. Ferramentas de apoio à documentação, triagem e monitoramento tendem a se tornar mais comuns também em serviços de enfermagem. Se a implementação vier desacompanhada de governança, treinamento e linguagem acessível, o efeito pode ser o oposto do desejado: mais desconfiança em vez de mais adesão.

A lição da semana é simples e poderosa. Em saúde, IA sem transparência não escala confiança. E, como quase sempre acontece no cuidado, a enfermagem estará no centro dessa conversa.

Fonte original: Pew Research Center. Americans want transparency when AI is used in their healthcare, publicado em 25 de agosto de 2026.

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Escrito por

Úrsula Teles

Acadêmica de Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de ensino, pesquisa e extensão relacionados à inovação em saúde e tecnologias digitais aplicadas à enfermagem. Possui interesse em saúde digital e inteligência artificial, com foco na aplicação dessas tecnologias no cuidado em enfermagem na área de urgência e emergência.

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