Neste artigo
Remover líquido com mais precisão na terapia renal contínua pode ajudar, mas o fluxo de trabalho da enfermagem precisa acompanhar
Em unidades de terapia intensiva, o equilíbrio entre retirar líquido em excesso e manter a estabilidade do paciente é uma das tarefas mais delicadas da prática clínica. Quando uma pessoa com lesão renal aguda precisa de terapia contínua de substituição renal, pequenas decisões sobre volume podem repercutir em pressão arterial, perfusão tecidual e segurança do cuidado.
É nesse contexto que um estudo publicado na Applied Nursing Research investigou a viabilidade e a aceitabilidade de uma estratégia de remoção líquida líquida baseada no peso corporal durante a CKRT, apoiada por uma calculadora automatizada. O foco não foi provar eficácia clínica definitiva, mas entender como essa proposta é percebida por enfermeiros que atuam à beira do leito.
Segundo os autores, a discussão é relevante porque estudos observacionais anteriores já associaram a retirada líquida baseada no peso, também descrita como UFNET, a desfechos importantes. Mas entre uma ideia promissora e uma rotina sustentável existe um obstáculo clássico da assistência: o que funciona no protocolo precisa funcionar também no plantão.
Na pesquisa, enfermeiros de UTIs vinculadas ao University of Pittsburgh Medical Center e à Mayo Clinic responderam a um levantamento sobre essa abordagem. Os resultados mostram uma combinação bem realista de interesse, cautela e preocupação operacional.
O principal recado do estudo é simples: padronizar a remoção de fluidos pode ser promissor, mas a adesão da enfermagem depende de treinamento, integração ao fluxo de trabalho e espaço para julgamento clínico.
O que é a remoção líquida baseada no peso durante a CKRT
A continuous kidney replacement therapy, ou CKRT, é usada em pacientes críticos com instabilidade clínica, especialmente quando a retirada de fluidos precisa acontecer de forma lenta e contínua. Em vez de uma abordagem intermitente, a terapia permite ajustes graduais ao longo do tempo.
Nesse cenário, definir quanto líquido retirar não é uma tarefa banal. Remover pouco pode manter ou agravar a sobrecarga hídrica. Remover demais pode contribuir para hipotensão intradialítica, piora hemodinâmica e outras complicações.
A estratégia analisada no estudo parte da ideia de relacionar a retirada líquida ao peso corporal do paciente. Em tese, isso ajuda a criar uma referência mais objetiva para a prescrição e para o acompanhamento da ultrafiltração líquida.
Além disso, os pesquisadores avaliaram a percepção sobre uma calculadora automatizada de remoção de fluidos. Esse tipo de ferramenta pode apoiar a tomada de decisão, reduzir variabilidade e tornar o processo mais padronizado.
- Padronização , ajuda a reduzir diferenças excessivas entre condutas.
- Rastreabilidade , facilita documentar metas e acompanhar ajustes.
- Segurança potencial , pode apoiar o controle da sobrecarga hídrica e da instabilidade.
Mas padronização não resolve tudo. Em terapia intensiva, pacientes mudam rapidamente. Por isso, a própria enfermagem tende a enxergar qualquer protocolo como útil apenas quando ele preserva margem para adaptação clínica.
Como o estudo foi conduzido
O trabalho foi descrito como um estudo de survey. Em vez de comparar grupos de pacientes ou medir desfechos clínicos duros, os autores buscaram entender percepções e atitudes de enfermeiros que cuidavam de pacientes incluídos no ensaio RELIEVE-AKI.
Foram incluídos 90 enfermeiros. Todos atuavam em unidades de terapia intensiva onde a estratégia de UFNET baseada no peso vinha sendo utilizada no contexto do estudo clínico mencionado pelos autores.
Essa abordagem é importante porque muitas inovações fracassam não por ausência de plausibilidade clínica, mas por desalinhamento com a rotina assistencial. Em outras palavras, um método pode parecer bom no papel e ainda assim ser rejeitado ou pouco utilizado se aumentar fricção no cuidado.
No caso desta pesquisa, a pergunta central foi bastante prática: os enfermeiros consideram essa estratégia factível e aceitável no mundo real?
- População avaliada , enfermeiros de UTI envolvidos no cuidado de pacientes em CKRT.
- Contexto , centros dos Estados Unidos ligados ao UPMC e à Mayo Clinic.
- Ferramenta estudada , estratégia baseada no peso com suporte de calculadora automatizada.
Mesmo sem trazer todos os detalhes operacionais do paper completo para além do que está acessível rapidamente, o abstract já entrega um conjunto consistente de sinais sobre percepção profissional, usabilidade e barreiras.
O que os enfermeiros perceberam como benefício
Os resultados mostram que parte relevante dos participantes viu valor clínico na proposta. Entre os 90 enfermeiros, 59% concordaram que a estratégia baseada no peso reduzia o risco de sobrecarga de fluidos.
Além disso, 50% acreditaram que o método poderia reduzir hipotensão intradialítica. Isso é especialmente importante porque retirar líquido de forma agressiva ou inadequadamente calibrada pode comprometer ainda mais um paciente já crítico.
Esses achados sugerem que a proposta não foi recebida apenas como burocracia adicional. Para uma parcela considerável dos respondentes, havia uma percepção concreta de que a ferramenta poderia melhorar a condução clínica.
Ainda assim, o entusiasmo foi moderado. Isso por si só já é um dado útil. Na prática da enfermagem intensiva, a aceitação real costuma aparecer justamente nesse meio-termo: reconhecer benefícios potenciais sem ignorar custos operacionais.
Quando metade ou mais da equipe percebe benefício clínico, existe base para adoção. Mas quando a flexibilidade cai e a carga de trabalho sobe, a implementação precisa ser redesenhada, não apenas defendida.
- Redução da sobrecarga hídrica , benefício percebido por 59% dos participantes.
- Menor risco de hipotensão , apontado por 50% dos enfermeiros.
- Facilidade de aprendizado da calculadora , reconhecida por 70% dos respondentes.
Outro dado interessante foi a percepção sobre o aprendizado da ferramenta automatizada. 70% dos enfermeiros concordaram que ela era fácil de aprender. Isso é relevante porque soluções digitais frequentemente fracassam logo na fase inicial de adoção.
Se a ferramenta é entendida rapidamente, a barreira de entrada diminui. Mesmo assim, facilidade de aprendizado não significa automaticamente valor clínico alto ou ganho de tempo no turno.
Onde a estratégia encontrou resistência
Os pontos de resistência apareceram de forma clara. Apenas 41% dos enfermeiros sentiram que o método permitia flexibilidade na remoção de fluidos. Esse número merece atenção.
Na UTI, a enfermagem lida com pacientes cujo estado hemodinâmico, resposta inflamatória, uso de vasopressores e metas clínicas mudam com rapidez. Por isso, qualquer lógica excessivamente rígida pode ser percebida como distante da realidade do leito.
O estudo também mostrou barreiras relacionadas à carga de trabalho. 36% dos participantes citaram aumento do trabalho de enfermagem como obstáculo, e 24% mencionaram maior demanda de tempo.
Quando os autores perguntaram especificamente sobre a calculadora automatizada, o padrão se repetiu. Embora 47% a tenham considerado clinicamente valiosa, 31% relataram aumento de carga de trabalho e 37% disseram que ela adicionava tempo ao fluxo assistencial.
- Flexibilidade limitada , só 41% perceberam liberdade adequada para ajustar a remoção.
- Carga operacional , 36% citaram aumento de trabalho.
- Tempo extra , 24% relataram maior demanda temporal, e 37% sentiram isso com a calculadora.
Esse tipo de resultado é extremamente familiar para quem trabalha com implantação de protocolos, tecnologia ou padronização em saúde. Uma ferramenta pode ser tecnicamente promissora e, ainda assim, sofrer rejeição parcial se não encaixar bem no ritmo da assistência.
Em outras palavras, a pergunta não é apenas “funciona?”, mas “funciona sem atrapalhar quem cuida?” Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para a enfermagem contemporânea.
Por que o julgamento clínico continua no centro
Um dos trechos mais importantes do resumo do estudo é a ênfase dada pelos enfermeiros à necessidade de individualizar a remoção de fluidos. Segundo o abstract, os profissionais destacaram que decisões desse tipo precisam considerar fatores específicos do paciente, e não apenas o peso corporal.
Isso faz todo sentido clínico. O peso pode ser uma referência útil, mas não resume sozinho a complexidade de um paciente crítico. Variáveis como estabilidade hemodinâmica, edema, balanço cumulativo, metas médicas, resposta a vasopressores e tolerância à retirada líquida continuam essenciais.
Por isso, o estudo reforça uma mensagem madura sobre inovação em saúde: ferramentas de apoio não substituem raciocínio clínico. Elas podem organizar, sinalizar e padronizar partes do processo, mas a decisão final precisa continuar sensível ao contexto.
Para a enfermagem, isso é especialmente relevante. Enfermeiros não são executores passivos de protocolo. São profissionais que monitoram resposta em tempo real, detectam deterioração precoce e ajustam prioridades conforme a evolução do quadro.
Se um sistema automatizado ignora essa dimensão, ele corre o risco de ser percebido como uma camada extra de trabalho, em vez de um apoio verdadeiro. Já quando a tecnologia respeita o julgamento clínico e reduz atritos, a adesão tende a crescer.
O que este estudo ensina sobre implementação em enfermagem
Mesmo sendo um estudo focado em nefrologia intensiva, os achados conversam com um tema muito mais amplo: como introduzir ferramentas padronizadas sem perder a lógica do cuidado centrado no paciente.
Na prática, a pesquisa sugere que implementar uma estratégia desse tipo exige mais do que disponibilizar uma calculadora. É necessário desenhar processo, treinar equipe, validar fluxos, ouvir usuários e revisar pontos de atrito antes de transformar a ferramenta em rotina.
O próprio abstract destaca três pilares para uma implementação bem-sucedida: treinamento robusto, integração ao fluxo de trabalho e suporte ao julgamento clínico. Esse tripé vale não só para CKRT, mas para praticamente qualquer inovação em enfermagem hospitalar.
Também vale notar que o estudo não descreve a estratégia como fracasso. Pelo contrário. Ele mostra uma intervenção com sinais de utilidade, porém dependente de desenho operacional mais cuidadoso.
- Treinamento , a equipe precisa entender não só como usar, mas quando ajustar.
- Integração de fluxo , a ferramenta deve caber no plantão real, não num fluxo idealizado.
- Escuta da enfermagem , barreiras percebidas pela equipe precisam orientar melhorias.
Esse é um ponto que gestores hospitalares e lideranças de enfermagem deveriam levar muito a sério. Inovar não é apenas comprar tecnologia ou aprovar protocolo. Inovar é fazer com que a solução seja clinicamente útil e operacionalmente sustentável.
Implicações para a prática clínica e para a gestão
Para a assistência direta, o estudo sugere que a remoção líquida baseada no peso pode ser uma estratégia interessante em pacientes selecionados. Mas sua adoção precisa acontecer com cautela, monitoramento e abertura para ajustes individualizados.
Para a liderança de enfermagem, a mensagem é ainda mais estratégica. Quando uma intervenção aumenta carga de trabalho percebida, isso pode comprometer adesão, satisfação da equipe e consistência da aplicação ao longo do tempo.
Por isso, implantações futuras devem prever momentos formais de feedback. O que a equipe relata sobre tempo, usabilidade e flexibilidade não é resistência cultural vazia. Frequentemente, é um indicador precoce de risco operacional.
Também é prudente considerar que este artigo se baseia em survey com enfermeiros. Ou seja, ele ajuda a entender percepção e aceitabilidade, mas não responde sozinho a todas as perguntas sobre efetividade clínica, impacto em desfechos ou custo-benefício.
Ainda assim, isso não diminui sua relevância. Em saúde, implementar algo sem entender a experiência de quem executa costuma sair caro. O estudo faz justamente o contrário: coloca a perspectiva da enfermagem no centro da conversa.
Conclusão
O trabalho de Singh e colaboradores mostra que a remoção líquida baseada no peso durante CKRT pode ser vista como uma proposta promissora por parte da enfermagem, especialmente no que diz respeito ao controle da sobrecarga de fluidos e à possível redução de hipotensão.
Ao mesmo tempo, os dados deixam claro que benefício percebido não basta. Se a estratégia reduzir flexibilidade ou adicionar carga operacional, sua adoção pode ficar comprometida.
O estudo aponta, portanto, para um equilíbrio necessário entre padronização e individualização. Em pacientes críticos, protocolos ajudam. Mas protocolos que ignoram a realidade do leito e o julgamento clínico da enfermagem tendem a perder força justamente onde mais importam.
Talvez essa seja a grande lição deste artigo: tecnologias e ferramentas de apoio só se tornam verdadeiramente úteis quando são construídas para servir o cuidado, e não para complicá-lo.
Referência
Singh W, Nikravangolsefid N, Palevsky PM, Kashani KB, Murugan R. Feasibility and acceptability of weight-based net fluid removal during continuous kidney replacement therapy: A nursing survey. Applied Nursing Research. 2026;88:152066. DOI: 10.1016/j.apnr.2026.152066.