Notícias

Pacientes querem saber quando a IA é usada no cuidado, mostra pesquisa do Pew

Júlio Sousa 26 de agosto de 2026 5 min de leitura

Neste artigo

Uma pesquisa divulgada pelo Pew Research Center em 25 de agosto reacendeu um debate que interessa diretamente à enfermagem, à gestão hospitalar e à saúde digital: os pacientes querem saber quando a inteligência artificial está sendo usada em seu cuidado. O levantamento, destacado pelo Modern Healthcare em sua cobertura ao vivo sobre IA no setor, mostra que a demanda por transparência supera o entusiasmo automático com a tecnologia e pode influenciar a forma como hospitais, clínicas e equipes assistenciais adotam novas ferramentas nos próximos meses.

Segundo o Pew, a pesquisa ouviu 3.488 adultos nos Estados Unidos entre 22 e 28 de junho de 2026. Um dos achados centrais é que 72% consideram extremamente ou muito importante que médicos e outros profissionais informem quando utilizam IA no cuidado em saúde. O percentual cresce quando a tecnologia interfere em decisões mais sensíveis, como análise de exames de imagem, apoio diagnóstico e explicação de resultados laboratoriais. Mesmo em tarefas vistas como administrativas, como agendamento e renovação de receitas, a maioria dos entrevistados ainda defende algum nível de aviso prévio.

“A common thread in their responses is that they’re uncertain about whether it’s used in their healthcare, and they want to be informed if it is”, resume o Pew Research Center ao apresentar os resultados.

O ponto talvez mais relevante para a prática clínica é que a percepção pública não gira apenas em torno de eficiência. Ela gira em torno de controle, consentimento e confiança. O estudo indica que 53% dos adultos dizem ter pouca ou nenhuma influência sobre o uso de IA em seu atendimento, enquanto 63% afirmam que gostariam de ter mais voz nesse processo. Em outras palavras, a tecnologia está avançando mais rápido do que a sensação de participação do paciente.

Para a enfermagem, isso importa muito. Em muitos serviços, os primeiros contatos do paciente com recursos de IA não acontecem em uma sala de inovação, mas em fluxos cotidianos: sistemas de documentação automática, alertas de deterioração clínica, apoio à triagem, monitoramento remoto e ferramentas de comunicação digital. Frequentemente, é a equipe de enfermagem que precisa explicar o processo, acolher dúvidas e traduzir em linguagem simples o que o sistema está fazendo, o que ele não faz e onde permanece indispensável o julgamento humano.

Os dados do Pew também ajudam a desmontar a ideia de que a população aceita qualquer automação desde que ela torne o atendimento mais rápido. Quando perguntados sobre situações específicas, 81% disseram que o paciente deveria ser informado se a IA for usada para analisar exames ou apoiar diagnósticos. No caso de anotações durante consultas, um recurso cada vez mais comum com os chamados “scribes” de IA, 72% também querem ser avisados. Isso cria uma pressão concreta para protocolos institucionais de comunicação e para políticas claras de consentimento informacional.

  • 72% querem ser informados quando a IA é usada em seu cuidado.
  • 53% sentem que têm pouca ou nenhuma influência sobre esse uso.
  • 63% gostariam de ter mais poder de decisão sobre a presença da tecnologia no atendimento.

Esse debate conversa com discussões recentes da literatura científica. Em artigo indexado no PubMed neste ano, pesquisadores apontaram uma lacuna de prontidão da liderança em enfermagem para governança de IA, destacando que muitos líderes reconhecem o avanço da tecnologia, mas ainda não se sentem confiantes para definir políticas, supervisionar riscos e estabelecer limites seguros. Outro texto recente reforça que a IA pode substituir tarefas, mas não o núcleo relacional, ético e humano do cuidado de enfermagem. Juntos, esses trabalhos ajudam a interpretar a pesquisa do Pew: transparência não é um detalhe burocrático, mas uma peça de segurança assistencial.

No contexto brasileiro, a discussão tende a ganhar força à medida que hospitais ampliam o uso de IA para documentação, gestão de leitos, apoio à decisão clínica e atendimento digital. A exigência por explicações claras deve afetar não só médicos e executivos, mas também enfermeiros, que ocupam posição estratégica entre tecnologia, fluxo de trabalho e experiência do paciente. Se a implantação ocorrer sem comunicação adequada, a promessa de ganho operacional pode vir acompanhada de desconfiança, resistência e aumento da carga de esclarecimento à beira leito.

O recado da nova pesquisa é direto: a população não está pedindo freio total na inovação, mas sim visibilidade sobre como a IA entra no cuidado. Para a enfermagem, isso reforça uma agenda de protagonismo em governança, educação digital e defesa de processos mais transparentes. Em um cenário em que sistemas automatizados passam a influenciar registros, alertas e decisões, explicar bem a tecnologia pode ser tão importante quanto implementá-la.

Fontes originais: Modern Healthcare, atualização de 25/08/2026; Pew Research Center, 25/08/2026. Contexto adicional: PubMed 42521995 e 42217292.

E-book IA na Enfermagem
E-book Gratuito

Boas Práticas em IA na Enfermagem

Baixe gratuitamente o guia completo sobre inteligência artificial aplicada ao cuidado em saúde.

Baixar E-book
Avatar photo
Escrito por

Júlio Sousa

Diretor de tecnologia e especialista em inovação educacional, com atuação em inteligência artificial aplicada à educação e desenvolvimento de plataformas digitais de aprendizagem. Graduado em Sistemas de Informação e especialista em Gestão e Governança em TI pela UFG.

Receba novidades sobre IA na Enfermagem

Inscreva-se e receba artigos, estudos e novidades sobre inteligência artificial aplicada à enfermagem diretamente no seu e-mail.

Sem spam. Cancele quando quiser.