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Uso de IA entre enfermeiros triplica em um ano, mas treinamento ainda fica para trás

Úrsula Teles 1 de agosto de 2026 4 min de leitura

Neste artigo

O uso de inteligência artificial entre enfermeiros nos Estados Unidos praticamente triplicou em um ano, segundo o 7th Annual State of Nursing Report, divulgado pela Incredible Health em 2026. O levantamento, baseado em uma pesquisa nacional com 2.240 profissionais de saúde e em dados de 1,5 milhão de trabalhadores do setor, mostra que a proporção de enfermeiros que usam IA saltou de 15% para 44%. O avanço, porém, veio com um alerta: a adoção está correndo mais rápido do que a estratégia e o treinamento oferecidos pelas instituições.

A notícia chama atenção porque a enfermagem ocupa posição central na transformação digital da saúde. É na rotina do cuidado, da documentação clínica, da priorização de riscos e da comunicação entre equipes que ferramentas de IA tendem a aparecer primeiro. Quando funcionam bem, elas podem reduzir tarefas repetitivas, apoiar decisões e melhorar a segurança do paciente. Quando entram sem preparo, viram mais uma camada de pressão sobre um time já sobrecarregado.

“Em 12 meses, os profissionais de saúde avançaram em IA mais rápido do que os empregadores para quem trabalham, e fizeram isso em grande parte por conta própria”, resume a análise da Incredible Health ao apresentar os resultados do relatório.

Os números ajudam a explicar esse descompasso. Embora 86% dos enfermeiros que já usam IA digam estar satisfeitos com a tecnologia, apenas 8% afirmam que seu empregador definiu uma estratégia clara de IA para a função que exercem. Além disso, 46% relatam não ter recebido nenhum treinamento em IA no último ano. O resultado é uma adoção desigual, com ganhos que ainda ficam abaixo do potencial prometido.

  • 44% dos enfermeiros pesquisados disseram usar IA, ante 15% no ano anterior.
  • 86% dos usuários de IA na enfermagem afirmaram estar satisfeitos com a experiência.
  • 46% não receberam treinamento em IA nos últimos 12 meses.

O próprio relatório mostra que treinamento faz diferença prática. Entre os enfermeiros que usam IA regularmente, 24% dos que receberam capacitação disseram economizar mais de uma hora por dia. Entre os que não receberam treinamento, esse percentual caiu para 16%. Em outras palavras, a tecnologia pode poupar tempo, mas isso depende menos da ferramenta isolada e mais de como ela é incorporada ao fluxo de trabalho.

Esse ponto conversa com a literatura científica recente. Um artigo publicado em agosto de 2026 no periódico Hu Li Za Zhi descreve a prática de enfermagem apoiada por tecnologia como uma combinação entre suporte à decisão clínica, análises preditivas de alerta precoce e cuidado centrado no ser humano. Segundo os autores, esses recursos podem melhorar a identificação de deterioração clínica e a priorização do atendimento, mas também trazem riscos como fadiga de alertas, desalinhamento com o fluxo assistencial e perda de autonomia quando implantados sem governança adequada.

Outra revisão sistemática, publicada em 2026 no International Journal of Nursing Studies, reforça a mesma ideia. Ao analisar 20 estudos sobre fluxos de trabalho de enfermagem habilitados por IA, os pesquisadores encontraram benefícios frequentes em carga de trabalho, bem-estar emocional e sustentabilidade da força de trabalho, mas observaram resultados mistos quando faltavam confiança, usabilidade, integração com o serviço e clareza ética.

No relatório da Incredible Health, a IA aparece também fora da assistência direta. Cerca de 39% dos enfermeiros disseram já ter usado ferramentas de IA na busca por emprego, percentual que sobe para 60% entre profissionais com menos de 28 anos. Eles usam esses sistemas para procurar vagas, revisar currículos e se preparar para entrevistas. Ainda assim, entre as organizações de saúde que usam IA, somente 4% a aplicam para triagem ou contratação.

Para a enfermagem brasileira, a principal lição não está apenas na velocidade da adoção, mas no tipo de adoção que está sendo construído. Se a IA entrar como apoio à documentação, à triagem de riscos, ao monitoramento remoto e à priorização clínica, ela pode aliviar parte da sobrecarga administrativa e liberar mais tempo para o cuidado. Mas, se chegar sem protocolo, sem capacitação e sem participação dos enfermeiros no desenho das soluções, a promessa de produtividade pode virar frustração.

Fonte original: Incredible Health, publicada em 2026, no texto Healthcare employers struggle to drive ROI from AI: Inside Our 7th Annual State of Nursing Report. Relatório relacionado: Annual State of Nursing Report: AI Adoption Trends and Future Implications for Retention.

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Escrito por

Úrsula Teles

Acadêmica de Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de ensino, pesquisa e extensão relacionados à inovação em saúde e tecnologias digitais aplicadas à enfermagem. Possui interesse em saúde digital e inteligência artificial, com foco na aplicação dessas tecnologias no cuidado em enfermagem na área de urgência e emergência.

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